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02/10/2016 21h28

Dois anos para entrar ou sair da história

Helena Chagas Helena Chagas
Helena Chagas é jornalista desde 1983. Exerceu funções de repórter, colunista e direção em O Globo, Estado de S.Paulo, SBT e TV Brasil. Foi ministra chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (2011-2014). Hoje é consultora de comunicação

O presidente Michel Temer tem exatos dois anos pela frente para fazer alguma coisa. No final de setembro de 2018, véspera de eleições gerais, o que foi, foi; o que não foi, não terá sido. É pouco tempo para ações de governo, menos ainda no relógio político. Obviamente, não será possível atirar para todos os lados e dar um cavalo-de-pau na economia, na gestão, na política. Dificilmente conseguirá também aprovar uma pauta que inclui ao mesmo tempo a PEC do Teto, a reforma da Previdência, a reforma trabalhista, a reforma política, a reforma do ensino médio, as mudanças na exploração do pré-sal, além de trocar os médicos cubanos do Mais Médicos por brasileiros e ainda fazer deslanchar o programa de privatizações e concessões para retomada do investimento. Ufa!

 
 

Em seus primeiros meses, o governo Temer funcionou como uma Babel em que cada ministro, oriundo de um partido e de uma base social específica, falou sua linguagem e se comportou como se não houvesse amanhã. Até o Planalto entrou no bate-cabeças, fazendo promessas diversas a interlocutores variados, mirando um vasto elenco de reformas e ações, indo e voltando, soltando balões de ensaio, confirmando e desmentindo medidas. Nos últimos dias, o presidente e seus auxiliares mais próximos parecem ter botado a cabeça no lugar e começaram a trabalhar com prioridades, pelo menos na pauta com o Congresso.

A prioridade número 1 hoje parece ser, acertadamente, a votação da PEC que limita os gastos governamentais à inflação do ano anterior, que precisa ser aprovada até o final de 2016. Nas últimas horas, mobilizaram-se o próprio Temer, seus ministros, articuladores e líderes no Congresso para traçar o cronograma de votações.

Mas o ruído continua. Anuncia-se o envio da reforma da Previdência ora antes das eleições, ora depois, ora entre o primeiro e o segundo turnos. Contra a vontade da Fazenda, o Planalto é convencido a reabrir as regras do projeto de repatriação de recursos às vésperas do prazo final de 31 de outubro, gerando insegurança. A reforma trabalhista saiu e voltou para a gaveta, assustando meio mundo nesse curto intervalo de tempo. A medida provisória da reforma do ensino médio chegou para confundir professores e estudantes.

Tudo isso representa um gasto excessivo de energia e um desnecessário desgaste para um governo que vai durar dois anos, um governo de transição que cumpriria sua missão histórica se conseguisse tirar o país do buraco da crise econômica com um ajuste fiscal convincente. E ponto final.

Só que as coisas não parecem ser bem assim na cabeça de alguns, e aí está o problema. Ao atirar para todos os lados, com planos para múltiplas áreas e setores, Michel Temer dá a impressão de ter ambições que vão além de 2018. São elas que podem colocar tudo a perder, pois é impossível trabalhar ao mesmo tempo na defesa e no ataque, tomar medidas duras no plano da economia e, junto, tentar ser popular. O bom resultado dessas medidas  pode até desembocar em aprovação governamental, mas raramente de imediato - ou seja, dentro dos dois anos do prazo de Temer.

A retomada da economia já dá seus primeiros sinais, junto com a expectativa de redução da inflação e de queda dos juros. Mas a percepção de melhora junto à maioria da população a se confirmar, é como a água que começa a circular nos canos, mas dá muitas voltas até chegar à torneira: demora. 

É improvável que o presidente venha a colher   frutos políticos da arrumação da economia que possam levá-lo a uma candidatura à reeleição em 2018. Ainda assim, essa possibilidade é uma sombra na relação com os aliados de sua base política - justamente aqueles que podem viabilizar ou não a aprovação do ajuste fiscal.

Temer chama os tucanos para conversar e repete dezenas de vezes que não é candidato. Eles fingem que acreditam. Mas o presidente não mexe uma palha para votar a emenda que acaba com a reeleição presidencial - uma maneira de encerrar o assunto. Por quê? Porque, no fundo, em algum lugar, há um Temer candidato à reeleição, ainda que ele mesmo possa não saber disso.

Nos gabinetes do Planalto, por exemplo, esse personagem existe. É natural. Entourages presidenciais têm agendas próprias, que superam e às vezes até divergem da do chefe. A principal delas, geralmente, é continuar no poder. Num governo de transição, que não foi eleito e tem sua sustentação nos partidos e no Congresso, porém, essa agenda é perigosa. Pode botar tudo a perder.

Outro dia, em Nova York, Michel Temer foi indagado sobre a baixa popularidade que pode ser resultado de reformas impopulares de ajuste fiscal. Respondeu que não se importará se concluir o mandato com 5% de aprovação, mas tendo salvado a economia do país. É esse Michel que deveria aparecer mais vezes nos próximos e decisivos meses que temos pela frente.

Se vestir a roupa de presidente de transição, despindo-se de maiores ambições para ele e sua turma, e aprovar a PEC do Teto sem desidratar o texto inicial, o presidente já terá garantido um lugar na história.

 

Michel Temer, presidente da República (Foto: Givaldo Barbosa / Agência O Globo) Michel Temer, presidente da República (Foto: Givaldo Barbosa / Agência O Globo)

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