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terça-feira,20 de outubro de 2020

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16/08/2020 21h01 - Atualizado em 16/08/2020 21h21

Sim, temos um grande problema

Paulo Schultz Paulo Schultz
Professor
Quando metade do país acha que Bolsonaro não tem qualquer culpa ou responsabilidade pelos mais de 100.000 mortos por coronavírus até aqui, significa que nós temos um grande problema no Brasil.
O cara negligenciou a epidemia, fez piada, falou merda, elevou a uma condição de Bíblia de lunáticos a famosa cloroquina, e fez o Ministério da Saúde se omitir de qualquer ação nacional coordenada de combate à pandemia.
 
E mesmo assim metade da população acha que ele não tem nada a ver com que aconteceu até aqui.
 
? Mas que diabo significa isso ?
 
Já afirmei várias vezes que Bolsonaro é burro porque não domina tema nenhum (educação, saúde, economia, etc)
Mas é uma águia na política.
Seja por si, ou por aqueles que o cercam no núcleo central do bolsonarismo, o fato é que ele acertou na mosca quando percebeu que, para a maioria da população brasileira, que é composta de pobres e trabalhadores  com baixos ganhos, o maior medo não era a contaminação ou morte pelo coronavírus, e sim o medo da falta de renda e da fome.
 
Tendo a percepção disso, centrou seu discurso no "vamos tocar a vida e aconteça o que tiver que acontecer".
E como ficar em casa em isolamento social é, na prática, um direito possível somente à classe média e à classe alta, pois a grande maioria dos brasileiros tem que ir pras ruas ganhar a vida, o discurso teve a concordância majoritária desse povo todo.
 
Nesse aspecto, o quadro mais  favorável ao capitão Messias junto às camadas populares se completou com os R$ 600 do auxílio emergencial.
De novo valeu a esperteza da comunicação política: ele queria dar apenas R$ 200. O Congresso,  numa negociação puxada pela esquerda, fechou em R$ 600,  mas foi Bolsonaro quem ficou com todo o lucro político do auxílio, pois, na prática, importa quem está pagando o benefício: o governo.
 
 Ressalto aqui não só a habilidade comunicativa de Bolsonaro, mas também a pasmaceira institucional das bancadas de esquerda no Congresso.
 
Tem mais ...
 
Quando 100 mil mortes são tratadas com normalidade, e faz-se quase um levante indignado no país por conta de uma publicidade com um pai trans, nós temos um enorme problema no país.
 
 Quando um percentual significativo do país chama de "mito" e se identifica com uma figura tosca, torta, mal educada e de traços fascistas , como Bolsonaro, então nós temos um grande problema no país.
 
 Quando, em meio à pandemia, temos a Ministra Damares, de forma ridícula, promovendo concurso de "máscara mais bonita", como se isso fosse relevante, e quando temos pessoas participando dessa bizarrice, nós temos um 
 Sabe qual o problema?
 
É saber se estamos vivendo um tempo sombrio em que parte da sociedade brasileira está humanamente adoecida, ou se, por conta do escancaramento e estímulo do política e socialmente incorreto e grotesco, vindo do bolsonarismo, estamos revelando que o brasileiro, em média,  não é cordial, receptivo, empático, e nem solidário, como sempre alardeado.
 
Talvez esse seja um raro benefício do tempo medonho que o país vive, sob o efeito perigoso e bizarro do bolsonarismo: a ignorância e a frieza estimuladas podem estar servindo para que se possa pensar  se isso é sintoma do momento, ou se parte significativa dos brasileiros sempre foi isso mesmo, só não revelava.

 

Este artigo é de responsabilidade exclusiva do seu autor, não representando necessariamente a opinião do portal.

 

Comentários

O pior, caro Paulo, hoje eu acho que boa parte dos brasileiros são assim mesmo, esses (des)valores que o Bolsonaro representa são os (des)valores que eles têm. Ver advogado defendendo o fim do direito, defendendo o justiciamento, então se perde totalmente a esperança de que o Brasil chegue em algum lugar no futuro, senão o fundo do poço.

Adalberto Paulo Klock - 26/08/2020 22h24

Muito bom texto, dissestes tudo o que eu também penso. Sempre fomos esse povo ignorante, embecilizado e egoísta juntando o preconceito, o racismo, o machismo... Agora todos com a boca escancarada agradecem sorrindo o auxílio emergencial e deixam que o patético e genocida faça o que quiser com o País.

Rose Bitencourt - 17/08/2020 14h09

Oi Paulo! Sempre acho que não temos condições de pensarmos sozinho/as sobre o momento politico em que estamos vivendo no país, tal o absurdo que é (gracias que não é para sempre, mas temos que passá-lo!) . Pensando contigo e com Foucault (kkkkk) entendo que as coisas nunca são como uma essência, mas estão sempre sendo, e elas só precisam de condições para emergir aqui e agora nesse tempo. Nos assustamos com o racismo e com fascismo latente na realidade brasileira atual, vestido de verde e amarelo, calçado no fundamentalismo religioso e carregando a bandeira de uma pátria inóspida. Pois, há algum tempo, para alguns, tudo parecia andar bem no país, porém quando um governo parece ameaçar as lógicas que mantém as classes sociais, cada uma em 'seu lugar', emerge com muita força tudo aquilo que a humanidade ainda não superou para se tornar uma comunidade. E deu no que deu, pessoas defendendo ditadura militar, defendendo armas e a matança de índios, negros, 'comunistas', pobres...Até onde iremos não sabemos. Mas nada é definitivo, outras condições surgirão...outras emergências também ...mas, não sem a luta de muitos!

Neusete M. Rigo - 17/08/2020 00h30

 

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