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domingo,20 de setembro de 2020

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16/05/2020 19h46 - Atualizado em 16/05/2020 19h53

Nada mais se encaixa? É isso que ele quer

Paulo Schultz Paulo Schultz
Professor
Aí você ouve ou lê.... "Bolsonaro comanda um desgoverno, não sabe o que quer, está perdido".
E vê conflitos diários em torno das falas e ações de Bolsonaro, e conclui que é isso mesmo.
Certo?
!Errado!
Bolsonaro não está perdido, e sabe o que quer fazer no país.
 
A situação de crise no país, por conta de uma crise econômica e social que já vinha se instalando desde 2015, e se agravou gradativamente de 2016 até aqui, somada à epidemia do corona vírus, traz o cenário ideal para os planos de Bolsonaro.
 
Bolsonaro quer o conflito político e social diário e permanente, quer que a epidemia ceife milhares de vidas, quer uma situação de desespero, desemprego, fome, violência.
!É no caos que seu projeto pode vingar!
 
Bolsonaro quer uma sociedade onde a vida das pessoas, a economia, o uso de recursos naturais, funcionem livres de qualquer mediação,  regulação ou proteção do poder público.
Uma espécie de anarcocapitalismo bárbaro.
 
 Que possui  três pilares principais. 
 
Primeiro, com o poder público se  ausentando e se eximindo de políticas sociais de inclusão e proteção, as igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais assumem essa função, e nessa circunstância cativam milhões de pessoas para um fundamentalismo insano que serve à concepção de sociedade desejada por Bolsonaro e seus seguidores.
 
Segundo, com o Estado se ausentando de políticas de segurança pública, as milícias tomam conta dessa função, estabelecendo no país inteiro o que já acontece nas favelas do Rio de Janeiro, onde elas, as milícias, são a lei e a ordem - lei e ordem criminosas, coisa de faroeste.
 
Terceiro,  com o poder público se ausentando do papel de indutor do crescimento e do desenvolvimento, uma pequena elite social e econômica toma conta disso, tendo a seu  favor um ambiente propício: produzir e explorar de maneira livre e selvagem, sem direitos trabalhistas, sem barreiras ambientais, e sem respeito ao direito de minorias.
 
Resumindo: uma sociedade onde a lei do mais forte vinga - na base do poder do dinheiro, da ausência de garantias mínimas de proteção à vida, e na base da força, com o uso liberado de armas.
 
!É isso que Bolsonaro quer!
 
É muito pior do que o modelo perfumado do neoliberalismo.
 Este já é ruim, porque  retira o poder público, e coloca o mundo privado para fazer suas funções, numa lógica  que, se pode pagar, tem, se não pode, fica sem.
 
No anarcocapitalismo bárbaro bolsonarista, temos uma sociedade  em que o poder público se exime de políticas e de mediação social - um ambiente selvagem e propício à barbárie, em todos os aspectos.
 
?Isso pode de fato acontecer ?
Pode.
 
Na verdade isso já vem se instalando passo a passo.
 
Bolsonaro tem desencaixado, dia após dia, com suas ações, e as de seu governo, os pilares da república brasileira.
 
Confrontos contra o Supremo Tribunal Federal,  o Congresso, a imprensa, a profusão de iniciativas para modificar leis,  eximindo o estado de controle e mediação nas questões ambientais, o afrouxamento e a liberação para  uso maior de armas, o avanço no aniquilamento da legislação trabalhista, o combate ao saber acadêmico,  o combate à pesquisa e à ciência, o incentivo à agressão às minorias, a intenção de torrar empresas públicas estratégicas do país( como Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Federal, Eletrobrás, etc.), a postura genocida frente à epidemia,  querendo expôr milhões à contaminação e à morte.
Tudo isso já é o andamento da instalação da sociedade bárbara que Bolsonaro quer acontecendo no país.
 
 ?Podemos evitar ?
Sim, devemos.
 
Depende de mim, de você, dos partidos de esquerda, dos movimentos sociais, dos setores e entidades da sociedade comprometidos com a democracia, da direita e do centro democráticos também, e, sobretudo, da consciência da grande maioria dos brasileiros de que essa experiência insana, destrutiva e perigosa, chamada governo Bolsonaro, que já dura quase um ano e meio, precisa ter fim.
 
É preciso ofensividade política para isso.
 
É preciso tensionar a presidência da  Câmara para que as dezenas de pedidos de impeachment sejam analisados, e um deles tenha início.
É preciso que o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal, o  Ministério Público, não se acovardem diante das agressões e intimidações diárias do bolsonarismo, e resolvam enfrentar a onda  fascista.
 
Mas esse enfrentamento se impulsionará apenas a partir da pressão e movimentação popular por sobre, e por  dentro dos partidos, dos movimentos, e de todos os setores da sociedade que queiram esse objetivo.
 
 Dado que estamos impossibilitados de movimentos de rua, temos o caminho: as redes sociais.
 
Um trabalho diário, intenso e convincente e efetivo de pressão e construção de uma narrativa hegemônica de que o que estamos vivendo no país precisa parar por aqui, pelo bem do país e da vida.
 
Não é fácil, e custará enfrentar espinhos e violência.
Mas é o necessário.
Ao trabalho.

 

Este artigo é de responsabilidade exclusiva do seu autor, não representando necessariamente a opinião do portal.

 

Comentários

Gostei muito. Parabéns pela análise.

Janquiel - 20/05/2020 21h16

Que loucura esse momento atual. E o pior é que ainda encontramos gente com curso superior e, por incrível, em cargos públicos, dizendo que Bolsonaro está certo, e que apoiam tudo o que ele está fazendo. Realmente, temos que lutar, mas conscientizar o povo, vejo cada dia, é algo impossível.

Adalberto Paulo Klock - 17/05/2020 19h11

Perfeita a leitura da realidade que vivemos, professor Paulo! Tudo está evidente para quem quer ver. Fatos analisados com profundidade. E caminhos sugeridos. A dificuldade é a inércia que acomete o povo brasileiro, agravada pela pandemia. Precisamos efetivar formas e caminhos para impedir que o pouco que resta seja dilapidado.

Terezinha Lazzaretti Krolikowski - 17/05/2020 12h02

Companheiro Paulo .Parabéns pela profundidade da análise,faz,com as tuas observações e conclusões,verter a lógica bolsonariana da sociedade do caos,propicia ao domínio das milícias armadas ou não.Mas, como coloca, temos caminhos,que as forças democráticas,inclusivpartidárias,digam agora, de que lado estão.

ANTONIO VILSON - 17/05/2020 11h20

Muito boa a leitura da situação atual, muitos acham o que o Bozo é louco mas analisando as suas atu Itudes principalmente em relação a troca de comando da Polícia Federal podemos ver que é de fato manipulador.

Marvius - 17/05/2020 08h45

Ótima análise Paulo, Bolsonaro está preparando o território que quer para governar, ou seja, o mais completo caos, um País governado aos moldes da milícia, da barbárie e como muito bem dissestes, onde impere a lei do mais forte. E para isso tem sua corja a seu lado. É por isso que vai ser preciso um conjunto de forças combativas como citastes para que seja feito o processo de impeachment. Não vai ser fácil. Mas sempre soubemos disso. Vamos a luta!

Rose Bitencourt - 17/05/2020 01h11

 

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